Francisco, um pacifista no vaticano (en portugués)

papa paloma

 

Perfil publicado en la revista brasileña Caros Amigos

Por Federico Frau Barros

“Que Deus e a virgem te façam papa”, cantavam gritando, centenas de pessoas na missa do dia 11 de fevereiro de 2013 na igreja de Lourdes, em Buenos Aires, para o arcebispo da cidade, Jorge Mario Bergoglio. Horas antes, o Papa Bento XVI tinha anunciado sua renúncia.

“Meu aniversário é no começo de fevereiro e sempre nos encontrávamos nessa data. A cada ano, depois do meu aniversário, ele viajava a Roma para meados do mês. Mas, naquele ano, após o meu aniversário, ele me convidou para ir à igreja de Lourdes na semana seguinte. Achei muito estranho. A partir daí comecei a perceber sinais constantemente, minha intuição não descansava”, diz Alicia Barrios, amiga de Francisco, jornalista e autora do livro “Meu amigo o Padre Jorge”.

“Eu lembro que, apesar do povo cantando aquela tarde na igreja, um padre naquela missa me disse: ‘ele não vai ser Papa, é velho’. Porém, eu percebia muita energia nele. E também muita humildade, como sempre. Porque eu sempre digo: quem chega ao Vaticano pensando que já é Papa, sai como cardeal”, diz Alicia.

Onze dias depois, na tarde de 22 de fevereiro de 2013, Adrián Pallarols, um ourives da cidade de Buenos Aires, viu pela última vez seu amigo Jorge, antes que ele virasse Papa. “Estávamos batendo papo e como ele viu que eu estava preocupado, me perguntou o que estava acontecendo. É que eu acho que o senhor não vai voltar”, disse. “Fique tranquilo amigo, eu tenho passagem de volta para o dia 26 de março”, respondeu Bergoglio.

Passaram vinte dias e ele foi eleito Papa. 48 horas depois ele recebeu um telefonema de Roma. Era o novo Papa. “Querido filho, isto aconteceu assim, mas não se preocupe. Nunca se esqueça de quanto eu te quero e saiba que eu jamais vou abrir mão de você”, avisou Francisco.

“Ele se deu ao trabalho de telefonar para todos seus entes queridos, um por um, para avisar a eles que iria fazer tudo o possível para manter os vínculos”, lembra Adrián, o ourives de Francisco desde muitos anos antes de sua chegada a Roma e continua trabalhando com ele.

Foi o Adrián quem fez o cálice pessoal do papa e também o troféu em forma de oliveira utilizado no “Jogo pela paz mundial”, organizado por Francisco, que teve a presença de grandes jogadores do futebol mundial como Francesco Totti, Ronaldinho e Diego Maradona.

Uma tarde de meados de 2012, Bergoglio visitou um centro de reabilitação de usuários de drogas na capital argentina. Passou a tarde com jovens viciados, que em suas orações pediam para escapar das drogas e da rua. Quando chegou sua vez, o futuro papa não duvidou: “Peço também pelo meu querido San Lorenzo que está perto de ser rebaixado”, suplicou.

“Todos começaram a rir, não acreditavam que um arcebispo pudesse dizer isso. Mas ele é isso em sua máxima expressão, nunca perde o sentido do humor”, lembra Alicia Barrios. Depois disso, o seu time conseguiu se salvar e, em 2014, já com Francisco no Vaticano, o San Lorenzo foi campeão da Copa Libertadores pela primeira vez na sua história. A paixão pelo San Lorenzo vem do berço. Seu pai jogava basquete no clube e a família Bergoglio ia todos os fins de semana ao estádio.

Francisco sempre foi um amante do futebol. O jornalista argentino Bruno Larocca conta, em uma reportagem da revista mexicana Gatopardo, que quando os pais do Francisco o procuravam fora de casa ele estava na quadra da esquina jogando bola ou na igreja rezando. Francisco, o primogênito de cinco irmãos, esteve vinculado à igreja desde pequeno. Nasceu e se criou no bairro de Flores, em Buenos Aires, e continuou morando na mesma área quando era arcebispo da cidade e para trabalhar tomava o metrô todos os dias, como qualquer cidadão. A uma quadra de sua casa, tinha uma paróquia e a seis quadras estava a Basílica San José de Flores. Mesmo antes de ele ter nascido, a igreja já estava no seu caminho. Mario José Francisco Bergoglio, contador, e Regina María Sívori, dona de casa, os pais de Francisco, se conheceram em uma missa no ano de 1934.

Francisco, que ainda não voltou para Argentina desde que assumiu o cargo de sumo pontífice, sempre retorna em sua memória a essa casa no bairro de Flores. Sempre foi uma pessoa muito enraizada. Quando morava na cidade alemã de Frankfurt, em 1986, onde foi escreveu sua tese sobre o teólogo e filósofo católico Romano Guardini, um líder dos movimentos sociais e espirituais que tempo depois foram a essência do Concílio Vaticano II, Francisco costumava passear perto do cemitério da cidade, de onde era possível ver o aeroporto. Uma vez um amigo dele o encontrou lá e perguntou o que estava fazendo nesse lugar. “Eu cumprimento os aviões que vão para a Argentina”, respondeu o saudoso portenho.

“Francisco não gosta de viajar, odeia estar em um avião. Prefere estar em casa, trabalhando ou visitando amigos”, diz Adrián Pallarols. Francisco se define como “casalingo”, palavra italiana que refere à pessoa que é amante da casa. Precisamente o “cuidado da casa comum” é o eixo da encíclica Laudato si’ (Louvado sejas), documento com forte impronta ecológica que ele publicou em 2015.

“A encíclica Laudato Si´ não está dirigida aos cristãos, mas à humanidade toda, e o seu pedido é para salvar a terra. É uma resposta da ecologia integral, que abrange todas as ordens da vida. Com este documento o Papa se colocou na vanguarda mundial”, disse o teólogo e escritor brasileiro Leonardo Boff quando visitou Buenos Aires em março deste ano.

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“Considerando que o ser humano também é uma criatura deste mundo, que tem direito a viver e a ser feliz e, além disso, possui uma dignidade especial, não podemos deixar de considerar os efeitos da degradação ambiental, do modelo atual de desenvolvimento e da cultura do desperdício sobre a vida das pessoas”, diz Francisco na página 34 desta encíclica.

“Existe alguma coisa mais humilhante para um ser humano do que não poder ganhar o próprio pão?”, perguntou Francisco em uma conferência sobre o livro “Martín Fierro” de José Hernández, considerado o poema nacional argentino.

“Agradeço tanto ao meu pai por me mandar trabalhar. O trabalho foi umas das melhores coisas que eu tive na vida e particularmente no laboratório, onde eu aprendi as coisas boas e as coisas ruins de todo trabalho humano”, confessou Francisco no livro “O Jesuíta” de Sergio Rubín e Francesca Ambrogetti. Ele começou a trabalhar durante os verões, quando tinha 13 anos, em uma fábrica de meias e teve seu primeiro trabalho diário aos 17 anos em um laboratório químico.

Adrián Pallarols explica a importância do trabalho com as pessoas queridas para Francisco. “Ele trabalha com pessoas nas que confia plenamente. E, logicamente, não é uma questão de negócios porque hoje dispõe de muito dinheiro e poderia contar com as companhias mais importantes do mundo. Por isso é que eu digo que é uma distinção afetiva”, avalia o ourives.

“O trabalho silencioso, na periferia, é a forma de continuar com a seu critério pastoral. Há dois meses assinamos um convênio entre os Museus Vaticanos e a minha fundação, que tem como tarefa institucionalizar o trabalho de mais de quatro anos que fazemos em conjunto com o Vaticano desde que Francisco é Papa e que vem de uma década de trabalho juntos na Argentina”, conta o escultor argentino Alejandro Marmo, que utiliza resíduos de fábricas para fazer suas obras. Juntos inauguraram várias esculturas em distintos bairros humildes da periferia quando Francisco era arcebispo. “Com Francisco pensamos a arte como uma ferramenta de comunicação para construir pontes entre as assimetrias e as desigualdades que sociedade tem”, disse Marmo em uma reportagem para o telejornal do Canal 13 da Argentina.

Se o culto pela amizade e o bom senso do humor são as características que melhor o definem como pessoa, a casa, a preocupação com o planeta e a dedicação ao trabalho são possivelmente as suas maiores inquietações no aspecto social. Precisamente por isso é que os políticos argentinos que representam, bem como os que dizem representar as ideias de Francisco, usam a palavra de ordem “Terra, teto e trabalho”.

Daniel Scioli, candidato presidencial em 2015 pelo kirchnerismo, a forca política da ex-presidente Cristina Fernández de Kirchner, baseou sua campanha nos “três T” do Papa Francisco. O “Movimento Evita”, um dos maiores movimentos sociais da Argentina, também vem usando os “três T” como referência nos últimos anos.

O fator comum entre os diferentes setores que usaram sua imagem é que todos eles pertencem ao setor peronista, a maior e mais ampla força política da Argentina, apesar da atual falta de liderança e de suas permanentes fraturas. O próprio Francisco se define como peronista. Dizem que, nos últimos tempos, ele se tem sentido “usado” ao ver tantos políticos fazendo campanha em seu nome, como foi o caso do amigo Gustavo Vera, que concorreu nas eleições primárias legislativas da cidade de Buenos Aires no mês de agosto passado.

Alejandro Marmo diz que prefere não politizar sua relação e entende que os que utilizam o vínculo com Francisco para benefício pessoal talvez não sejam verdadeiros amigos. “Nestes anos houve muitos supostos amigos do Papa que confundiram os verdadeiros processos de transformação social. Eu acho que as pessoas que são próximas mesmo, não andam falando o tempo todo. Eu prefiro que o meu trabalho junto ao Santo Padre seja o que fale”, afirma.

Francisco se expressa sobre a política interna argentina por meio de gestos. “Com o jeito magoado recebendo alguém, significa que não compartilha a postura dessa pessoa”, diz Alicia Barrios, dando a entender que as fotos de Francisco com a expressão entediada quando recebeu o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump e o da Argentina, Mauricio Macri, não foram por acaso.

Outro gesto de Francisco para tratar a política interna da Argentina foi em maio de 2017, quando ele enviou um rosário e uma carta à Milagro Sala, líder social na província de Jujuy, no norte do país, e primeira presa política argentina na presidência de Macri.

Recentemente Francisco também confirmou que não viajará para a Argentina em 2018, como especulavam porta-vozes do governo, e possivelmente nem viaje em 2019, já que tem repetido várias vezes que não iria ao seu país em ano eleitoral para evitar a utilização de sua visita com fins políticos.

A utilização da sua figura na política é uma coisa com a qual Francisco não concorda e que procura evitar. Na Argentina, é comum ouvir que Bergoglio era uma pessoa e que Francisco é outra. Além das previsíveis mudanças ao assumir a imensa responsabilidade de comandar mundialmente a Igreja Católica, esse argumento da “metamorfose” foi utilizado para diminuir o valor da sua imagem por diferentes matizes ideológicos. No setor da direita, se diz que Francisco virou um populista. Na esquerda, sua trajetória anterior ao pontificado é questionada com insinuações de que foi cúmplice da ditadura militar que vigorou entre 1976 e 1983, o que é recusado pelos militantes proeminentes dos direitos humanos, como o Prêmio Nobel Adolfo Pérez Esquivel.

“Bergoglio nunca apoiou a ditadura. As acusações contra ele são falsas. Naquele momento, ele apenas era a autoridade superior dos jesuítas e não teve qualquer papel [no apoio ao regime militar]”, declarou Esquivel após ser recebido em audiência pelo Papa em Roma, em março de 2013, apenas uma semana após a assunção de Francisco.

Em maio de 2016, Francisco recebeu Hebe de Bonafini, líder das Mães da Praça de Maio, que no passado o tinha chamado de “porcaria” e “fascista”. Depois da repercussão e o uso político desta reunião, Francisco enviou um e-mail para um amigo que acabou vazado para a imprensa. “Os argentinos somos incorrigíveis”, disse Francisco. “Esta senhora me ofendeu várias vezes, mas eu não posso fechar a porta a uma pessoa a quem sequestraram e torturaram os filhos sem que se saiba onde foram enterrados. Se ela me usa ou não, como andam dizendo por aí, não é o meu problema”, completou.

O certo é que houve, sim, uma mudança “energética” em Francisco, poderíamos dizer. Mario Aurelio Poli, atual arcebispo de Buenos Aires, comentou sobre seu antecessor. “Eu o vejo agora com muito entusiasmo. Aqui ele tinha cara de velório”, brinca.

Gustavo Vera, amigo de Francisco e presidente da ONG “La Alameda”, que luta contra o trabalho em condições ilegais, revela que quando se reuniu com Francisco lhe perguntou por que agora sorria mais. “Ele me contou que, quando estava começando sua carreira como padre, um sacerdote lhe disse que se queria progredir nesse caminho teria que pensar claro e falar escuro. Isso tinha a ver com que se ele dissesse as coisas diretamente como pensava, poderia ter problemas. O que eu acho é que agora, além de pensar claro, ele pode falar claro”, explica Vera.

Com relação às complicações e aos inimigos internos que Francisco tem que enfrentar dentro da Igreja, Adrián Pallarols, avalia que o mais complexo é que tenha pessoas que, apesar das boas intenções, viraram burocratas por conta do trabalho diário. “Por isso ele pede constantemente aos sacerdotes que saiam e que não fiquem na moleza, pois as pessoas que precisam de ajuda estão nas ruas”, ressalta Adrián.

Logicamente Francisco também cultivar novos amigos viajando pelo mundo, incluídos grandes líderes mundiais de diferentes cores políticas, do conservador presidente paraguaio Horácio Cartes até o presidente cubano Raul Castro, com quem fez uma amizade muito interessante, que chegou ao ponto de Castro viajar para a Assembleia Geral da ONU quatro dias antes de sua apresentação, somente para encontrar o Papa. Ainda, é conhecido o carinho que Francisco tem pela ex-presidente brasileira Dilma Rousseff. Logo após a ilegítima destituição, em agosto de 2016, Francisco pediu aos brasileiros para rezarem para que a Nossa Senhora da Aparecida continuasse cuidando do Brasil e de seu povo nesse momento triste.

brasil

O contexto político atual na América do Sul é bem diferente ao do momento em que Francisco foi eleito Papa em 2013. A maioria dos governos progressistas do continente deixou o poder, em quase todos os casos enfrentando acusações de corrupção e sem construir novas lideranças políticas. O próprio país do Papa é um dos casos mais claros nisso. O kirchnerismo esteve doze anos no poder e não conseguiu ou não permitiu que surgisse nenhuma figura política que pudesse suceder a Cristina Fernández de Kirchner no poder. Foi assim que Mauricio Macri, um empresário com somente dez anos de carreira política, virou presidente. Francisco, um dos principais críticos do capitalismo selvagem no mundo, viu como as grandes corporações voltaram ao governo.

Contudo, se alguma coisa Francisco vem mostrando nestes quatro anos e meio de papado é que não se deixa levar por rancores e que não conhece coisas impossíveis. Sua importante participação no histórico diálogo e a recomposição das relações entre Cuba e os Estados Unidos, sua intervenção no conflito entre israelenses e palestinos e o seu envolvimento no processo de paz da Colômbia são algumas evidências da sua vocação pela paz mundial que deixam claro que ele é muito mais do que um líder religioso. Por esse tipo de atitudes foi que o ex-presidente equatoriano, Rafael Correa, definiu Francisco como um gigante moral para crentes e não crentes.

Sobre o que não restam dúvidas é que este Papa não ficará na história como mais um pontífice. Desde aquele dia 13 de março de 2013, em que saiu com suas sandálias gastadas na primeira aparição como Papa, deixou claro que seria um Santo Padre muito particular.

Recentemente, em um dos tantos gestos de Francisco com as minorias e os setores historicamente excluídos, ele enviou um comunicado para um casal de dois homens brasileiros que tinham casado e batizado seus filhos. “O Papa Francisco lhes deseja felicidade, invocando para a sua família a abundância das graças divinas, para que vivam constante e fielmente a condição de cristãos”, se lê no documento enviado pelo Monsenhor Paolo Borgia, assessor da Secretaria de Estado do Vaticano.

Alicia Barrios é possivelmente a amiga mais próxima de Francisco e a encarregada de levar as provisões das duas coisas que Francisco mais precisa da Argentina: doce de abóbora e salame de Mercedes, a capital do salame na Argentina. Alicia definiu seu amigo como um Papa que trabalha à maneira de um padre. “Ele sempre será um padre. Quando era arcebispo era um arcebispo que trabalhava como padre”, garante.

Uma famosa música da cantora chilena Violeta Parra – “¿Qué dirá el Santo Padre?” – interpelava o Papa daquele momento, Paulo VI, pelo silêncio perante o assassinato de Julián Grimau pelas mãos do regime franquista e perguntava “o que dirá o santo padre, que mora em Roma, que estão degolando a sua paloma”. Francisco, que está demonstrando ser um Papa único, parece estar disposto a se entregar de corpo e alma para evitar que a paz seja imolada.

 

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